1. Deu-nos a Cinemateca Portuguesa, ao longo dos três últimos meses uma retrospectiva, bastante completa, dos filmes de Mikio Naruse (1905-1969) , cuja obra permaneceu muito tempo quase ignorada das audiências ocidentais.
Contemporâneo da primeira geração de realizadores japoneses – Yasujiro Ozu, Kenzi Mizogouchi, inspiração para os humanistas do pós guerra – Akira Kurosawa, Kihachi Okamoto – e para os realizadores da “nova vaga japonesa” dos anos 60-70, tais como Nagisa Oshima e Shoei Imamura, Naruse só viria ser (re)descoberto, pelos idos anos 80, no festival de cinema de Locarno, numa retrospectiva acompanhada por um catálogo – ensaio da crítica Audie Bocke, Mikio Naruse um maître du cinema japonais (Editions du Festival de Locarno, 1983).
Audie Bock continuou a obra de divulgação do cinema de Naruse, publicando, entre outros ensaisos, The Art of the Sidelong Glance: the Cinema of Mikio Naruse, no número de Novembro de 2005 da revista Artforum, que podemos encontrar, com ligeiras alterações, no livro que acompanha o volume I, dedicado a Naruse, da série The Masters of the Cinema.
Que não fique a ideia que Naruse tipifica a imagem romântica do génio incompreendido, pobre e solitário, talvez apoiado por poucos amigos indefectíveis. Embora atravessando fases de dificuldade e de probreza Naruse, tal como a personagem do assalariado que pontua grande parte dos seus filmes, foi um zeloso e competente funcionário de produtoras japonesas, cujo trabalho («o meu mister», diria Manoel de Oliveira) consistia em realizar filmes. Era a sua profissão, aquilo que fez durante toda a vida, integrando os vários estilos do cinema japonês; trabalhou continuamente, atravessando a guerra sino japonesa, a segunda guerra mundial e a ocupação americana. O seu estilo acompanha o evoluir dos tempos e das técnicas, desde os rápidos movimentos de câmara e de montagem dos filmes do tempo do mudo, até à elegante paleta de cores nas composições para o CinemaScope dos anos 60.
É esta longevidade produtiva de Naruse que é, de algum modo, responsável pelo seu relativo esquecimento, dificultando a apreensão da sua obra como um todo unitário e coerente. Por exemplo, a perspectiva formalista de Noel Burch, iria considerar irrelevante toda a sua obra posterior a 1935, considerando-a demasiado próxima da norma padrão ocidental, a que era imposta pelos estúdios de Hollywood, enquanto uma perspectiva mais humanista e liberal, como a exemplificada por Donald Richie tenderia a exaltar a produção do pós guerra.
2. A um primeiro olhar, Naruse perde para com os seus contemporâneos Ozu e Mizoguchi: o seu estilo específico visual não atinge a mesma mestria; a sua visão do mundo carece do humor terno e ácido de Ozu ou de sentido da transcendência de Mizoguchi. No entanto, é como construtor de dramas profundos, em que os seus personagens, sobretudo mulheres das classes médias e médias -baixa, se batem pela satisfação das suas necessidades básicas, físicas, económicas e sociais, que a obra de Naruse ganha relevo. Com um olhar pouco habitual sobre a experiência feminina Naruse constrói dramas/melodramas íntimos – às vezes quase minimalistas – subtis e profundamente realistas. Cineasta de mulheres soube retratá-las no conflito entre a tradição e a modernidade, na delineação precisa das condições materiais específicas e adversas, na sua luta solitária pela sobrevivência digna, na compreensão detalhada e elaborada dos seus sentimentos. Se às suas “heroínas”parece faltar a força e o feminismo das mulheres de Mizoguchi – veja-se deste, por exemplo, o extraordinário O meu amor queima- as suas mulheres revelam-se mais independentes e mais dotadas de sentido prático, talvez mais relevantes para a visão do mundo infeliz e desinteressante que Naruse apresenta. E os homens, perguntar-se-á? Uns tristes, convencidos que são fortes.
Naruse é materialista por excelência. No seu mundo não há o conforto da transcendência, da estética, da poesia, da religião, até do suicídio honroso; apenas a imanência da existência quotidiana, sem recurso a sujeita às condições sociais e económicas das quais não existe escapatória possível. Um mundo que é uma escola de combate na qual se enfrentam a traição e o desapontamento, mas que é sobretudo um lugar de profunda solidão.
3.Naruse partilhava com o amigo Ozu a ideia que os filmes devem ser «coisas que ou vivem na memória do espectador ou se evaporam no nada» e serve ideia de pretexto para introduzir uma das principais interrogações de Collin McGinn (The Power of Movies):
« … <a>proposal … – made by Carroll , an astute commentator on the working of film- is that movies offer us, by means of their cinematic devices an unusually clear and intelligible medium. We do not learn to watch films (unlike reading) (…). Thus movies are uniquely accessible to the viewing mind. (…) While I would agree that movies do enjoy this Kind of narrative perspicuity, this doesn’t explain their power. (…) We need to know how movies tap so readily into our emotions, not merely how they are cognitively accessible».
4. Enquanto se aguarda o catálogo relativo ao ciclo Finalmente Naruse da CPMC, são relativamente acessíveis alguns ensaios sobre Mikio Naruse, por exemplo em Senses of Cinema http://archive.sensesofcinema.com, de onde se citam:
Alexander Jacobi, Mikio Naruse, Senses of Cinema
Freda Freiberg, The Materiaistic Ethic of Mikio Naruse,
E ainda:
Audie Bock – Mikio Naruse : un maître du cinema japonais, Locarno, 1983
Noel Burch- To the distant Observer, Scolar Press, 1979
AA,VV , Naruse, volume que acompanha a primeira caixa do mesmo nome em The Masters of Cinema, contendo os filmes Repast (1951), Sound of the Mountain (1954) e Flowing (1956)






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