A humanidade no Cinema: Mikio Naruse

Junho 17, 2009

1. Deu-nos a Cinemateca Portuguesa, ao longo dos três últimos meses uma retrospectiva, bastante completa, dos filmes de Mikio Naruse (1905-1969) , cuja obra permaneceu muito tempo quase ignorada das audiências ocidentais.

Contemporâneo da primeira geração de realizadores japoneses – Yasujiro Ozu, Kenzi Mizogouchi, inspiração para os humanistas do pós guerra – Akira Kurosawa, Kihachi Okamoto – e para os realizadores da “nova vaga japonesa” dos anos 60-70, tais como Nagisa Oshima e Shoei Imamura, Naruse só viria ser (re)descoberto, pelos idos anos 80, no festival de cinema de Locarno, numa retrospectiva acompanhada por um catálogo – ensaio da crítica Audie Bocke, Mikio Naruse um maître du cinema japonais (Editions du Festival de Locarno, 1983).

Audie Bock continuou a obra de divulgação do cinema de Naruse, publicando, entre outros ensaisos, The Art of the Sidelong Glance: the Cinema of Mikio Naruse, no número de Novembro de 2005 da revista Artforum, que podemos encontrar, com ligeiras alterações, no livro que acompanha o volume I, dedicado a Naruse, da série The Masters of the Cinema.

Que não fique a ideia que Naruse tipifica a imagem romântica do génio incompreendido, pobre e solitário, talvez apoiado por poucos amigos indefectíveis. Embora atravessando fases de dificuldade e de probreza Naruse, tal como a personagem do assalariado que pontua grande parte dos seus filmes, foi um zeloso e competente funcionário de produtoras japonesas, cujo trabalho («o meu mister», diria Manoel de Oliveira) consistia em realizar filmes. Era a sua profissão, aquilo que fez durante toda a vida, integrando os vários estilos do cinema japonês; trabalhou continuamente, atravessando a guerra sino japonesa, a segunda guerra mundial e a ocupação americana. O seu estilo acompanha o evoluir dos tempos e das técnicas, desde os rápidos movimentos de câmara e de montagem dos filmes do tempo do mudo, até à elegante paleta de cores nas composições para o CinemaScope dos anos 60.

É esta longevidade produtiva de Naruse que é, de algum modo, responsável pelo seu relativo esquecimento, dificultando a apreensão da sua obra como um todo unitário e coerente. Por exemplo, a perspectiva formalista de Noel Burch, iria considerar irrelevante toda a sua obra posterior a 1935, considerando-a demasiado próxima da norma padrão ocidental, a que era imposta pelos estúdios de Hollywood, enquanto uma perspectiva mais humanista e liberal, como a exemplificada por Donald Richie tenderia a exaltar a produção do pós guerra.

2. A um primeiro olhar, Naruse perde para com os seus contemporâneos Ozu e Mizoguchi: o seu estilo específico visual não atinge a mesma mestria; a sua visão do mundo carece do humor terno e ácido de Ozu ou de sentido da transcendência de Mizoguchi. No entanto, é como construtor de dramas profundos, em que os seus personagens, sobretudo mulheres das classes médias e médias -baixa, se batem pela satisfação das suas necessidades básicas, físicas, económicas e sociais, que a obra de Naruse ganha relevo. Com um olhar pouco habitual sobre a experiência feminina Naruse constrói dramas/melodramas íntimos – às vezes quase minimalistas – subtis e profundamente realistas. Cineasta de mulheres soube retratá-las no conflito entre a tradição e a modernidade, na delineação precisa das condições materiais específicas e adversas, na sua luta solitária pela sobrevivência digna, na compreensão detalhada e elaborada dos seus sentimentos. Se às suas “heroínas”parece faltar a força e o feminismo das mulheres de Mizoguchi – veja-se deste, por exemplo, o extraordinário O meu amor queima- as suas mulheres revelam-se mais independentes e mais dotadas de sentido prático, talvez mais relevantes para a visão do mundo infeliz e desinteressante que Naruse apresenta. E os homens, perguntar-se-á? Uns tristes, convencidos que são fortes.

Naruse é materialista por excelência. No seu mundo não há o conforto da transcendência, da estética, da poesia, da religião, até do suicídio honroso; apenas a imanência da existência quotidiana, sem recurso a sujeita às condições sociais e económicas das quais não existe escapatória possível. Um mundo que é uma escola de combate na qual se enfrentam a traição e o desapontamento, mas que é sobretudo um lugar de profunda solidão.

 

3.Naruse partilhava com o amigo Ozu a ideia que os filmes devem ser «coisas que ou vivem na memória do espectador ou se evaporam no nada» e serve ideia de pretexto para introduzir uma das principais interrogações de Collin McGinn (The Power of Movies):

« … <a>proposal … – made by Carroll , an astute commentator on the working of film- is that movies offer us, by means of their cinematic devices an unusually clear and intelligible medium. We do not learn to watch films (unlike reading) (…). Thus movies are uniquely accessible to the viewing mind. (…) While I would agree that movies do enjoy this Kind of narrative perspicuity, this doesn’t explain their power. (…) We need to know how movies tap so readily into our emotions, not merely how they are cognitively accessible».

4. Enquanto se aguarda o catálogo relativo ao ciclo Finalmente Naruse da CPMC, são relativamente acessíveis alguns ensaios sobre Mikio Naruse, por exemplo em Senses of Cinema http://archive.sensesofcinema.com, de onde se citam:

Alexander Jacobi, Mikio Naruse, Senses of Cinema

Freda Freiberg, The Materiaistic Ethic of Mikio Naruse,

E ainda:

Audie Bock – Mikio Naruse : un maître du cinema japonais, Locarno, 1983

Noel Burch- To the distant Observer, Scolar Press, 1979

AA,VV , Naruse, volume que acompanha a primeira caixa do mesmo nome em The Masters of Cinema, contendo os filmes Repast (1951), Sound of the Mountain (1954) e Flowing (1956)

A Humanidade do Cinema

Maio 27, 2009

«The mind- movie problemis the problem of explaining how is that the two dimensional moving image, as we experience it in a typical feature film, manage to hook our conscienciousness in the way it does.»

Collin McGinn , The Power of Movies

Precisava de um pretexto para começar esta série de comentários, que pretendo que mantenha alguma regularidade. Forneceu-ma, infelizmente, a morte do dr. João B. da Costa. Com ele, aprendi a ver cinema, a ler pintura, a ouvir música, a ser católico de oposição, tudo isto em mais de trinta anos de diálogo, sem nunca ter tido o privilégio de trocar, com ele, sequer «um bom dia, como está?».

Da última vez que o vi, celebrava-se uma das múltiplas homenagens ao centenário do mestre Manoel de Oliveira e, imaginem, nem me pude chegar à mesa, nem sequer pude pedir um mísero autografo no catálogo – o que era impossível, porque pela parte que me tocava, não constava na lista dos ilustres convidados.

O que me ensinou, nestes anos, o dr. João B. da Costa? O fascínio do cinema.

Esse fascínio que, há muitos, muitos anos atrás, nos fazia, meninos da escola e do liceu seguir, no princípio e cada semana, o funcionário da câmara responsável por colocar os cartazes da programação do Cineteatro São Mateus e correr, no dia seguinte, a ler as notas afixadas na porta da Sé, que eram, se não me falha a memória, da responsabilidade do Cineclube Católico… (já agora, para quando uma história, a sério., da importância do cine clubismo em Portugal, antes do 25 de Abril e nos anos que se lhe seguiram?).

O que me diz o termo “fascínio do cinema»? Que o cinema, em todas as suas dimensões e manifestações, traduz aquilo que na Humanidade a caracteriza enquanto tal.

Que o poder do cinema é indisputável: como o filósofo Stanley Cavell chama à atenção em The World Viewed, « the sheer power of the film is unlike the power of the others arts». Existe algo, especificamente no cinema, que interliga a mente humana de um modo muito profundo, o cinema acarreta um determinado tipo de carga psicológica, que nenhuma outra forma de arte consegue convocar.

Poder que se manifesta de duas formas – demograficamente e individualmente: o cinema detém um apelo às massas que nenhuma outra arte manifesta. E, ao nível individual, a qualidade da atracção que o cinema exerce sobre mim, enquanto, indivíduo, questiona-me de perto: «What is about movies that explain their amazing hold over the human mind?».

Modernização Social:demografia, emigração e urbanização

Maio 7, 2009

O século XIX, em termos demográficos, é marcado por um crescimento de tal ordem intenso que é comum falar-se em explosão demográfica, caraterizada pela redução uma taxa média de natalidade (inferior aos séculos anteriores) mas com uma mortalidade mais reduzida, criando um saldo favorável, favorecido pelas melhorias alimentares derivadas das inovações técnicas na agricultura e pelo progresso dos transportes que fizeram circular os alimentos, e pelas melhorias significativas das condições de higiene e progressos médicos ligados ao controlo das doenças infecciosas. Estas alterações do regime demográfico associadas às transformações económicas originaram uma forte expansão urbana, em especial durante a segunda metade do século. O crescimento das cidades ocorreu em círculos concêntricos ou ao longo das vias de acesso ao centro, fazendo nascer bairros periféricos constrastantes com as zonas de luxo erguidas no centro das cidades. O notável urbanismo levou à criação de serviços municipalizados de limpeza, abastecimento de água, luz e segurança, entre outros, num processo verdadeiramente impulsionador da modernidade citadina. Finalmente as possibilidades citadinas ligadas à indústria associadas à instabilidade agrária (profundamente dependente do clima) levaram ao crescimento dos fluxos migratórios, com EUA, Canadá, Argentina, Brasil, Nova Zelândia e Austrália a servirem de porto de chegada a milhares de europeus e asiáticos à procura de uma oportunidade.

A Humanidade da Música

Maio 5, 2009

“Assim é a música: ao te libertar, prende-te ainda mais”
Bernt Von Heiseler

Apesar da palavra música derivar do grego musiké téchne, a realidade é que a música, enquanto expressão dos sentidos e expressão de contextos sócio-culturais, é tão universal quanto a linguagem, porque no fundo, a música é uma linguagem transmitida através de sonoridades e silêncios. Erroneamente considera-se que a música é, acima de tudo, uma manifestação artística que se expandiu para outros contextos com a terapia e dos ritos religiosos. Obviamente que essa interpretação carece de uma leitura religiosa ampla e principalmente pré-religiões do livro. Uma análise centrada nas religiões tradicionais facilmente permite constatar que a música se desenvolveu precisamente como veículo da prática litúrgica, funcionando como elo de ligação ao divino e sacralização do acto ritual. Povos tradicionais como os Yorùbá têm na música vital motor cultural e religioso. Os ritos iniciáticos, as festividades populares e todas as actividades do sagrado e profano assentam na vocalização das fórmulas mágicas através da sonoridade dos instrumentos músicas e do ritmo implementado nos textos.

A forma com se interpreta a função e essência da música, tem criado duas correntes distintas: a naturalista e a funcional. A abordagem naturalista, desenvolvida por Mersenne e Rameau, assenta na concepção de que a música não é um produto humano mas antes emana da natureza, os silêncios e os sons do natural são a primeira forma de música, porque a música é uma linguagem viva. Paralelamente, a visão funcional fala-nos da música como criação, como canal de comunicação, como diálogo entre compositor e ouvinte. É a actividade artística por excelência e só existe no âmbito do ser humano.

Seja qual for a leitura que preferirmos ou se entendermos que a música será o resultado da mescla das duas correntes, a verdade é só uma – a música é um meio vital de comunicação sensorial e atravessou todas as civilizações humanas, sendo tão antiga como a linguagem e a própria experiência religiosa, por mais simples que ela seja (divinização do medo da morte).

A frase de Bernt Von Heiseler, que serve de abertura ao presento artigo, resumo bem a relação que o sujeito desenvolve com a música. As possibilidades sensorais que a mesma disperta – seja de libertação, epifania, relaxamento, ligação ao divino, expressão de sentimentos, etc. – funciona dupla e contraditoriamente. Permite por um lado canalizar estados de alma para um patamar de pureza e libertação e ao mesmo tempo é uma droga sensitiva, uma vez que quanto maior é a relação com a música, quantos mais estados de conhecimento e de apreciação maior será a dependência. E a música continua a ser uma das melhores criações humanas. Acima dos homens, perto dos deuses.

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O Capitalismo Industrial e Financeiro:crises do capitalismo e mecanismos de resposta

Maio 5, 2009

As crises financeiras e capitalistas não são dados novos. Desde o século XIX é possível reconstituir uma série de movimentos económicos que delimitam ciclos por uma fase de expansão e subida dos preços e outra caraterizada pela regressão e descida dos preços. Estes movimentos diferenciados podem ser sintetizados nos em:

  • movimento ou tendência secular ou trend.
  • movimento de longa duração ou ciclo de Kondratieff, com uma duração de 40 a 50 anos, com uma fase de subida e uma de baixa ou estagnação.
  • ciclo curto, clássico, maior ou de Juglar, com uma duração de 6 a 10 anos.
  • movimentos sazonais ligados às estações sensíveis ao turismo e agricultura.

Em economias industrializados são os ciclos de Juglar (6 a 10 anos) que balizam as crises, agora provocadas por fenómenos de superprodução, contrárias às pré-indústriais chamadas de crises de subsistência. A violência das crises e sobretudo os seus efeitos sociais puseram em evidência as fragilidades do capitalismo liberal, pelo que os mecanismos de resposta à crise se traduziram no incremento das políticas protecionistas e o aumento da intervenção do Estado na regulação da vida económica e social.

O Capitalismo Industrial e Financeiro: da fábrica à grande empresa

Maio 5, 2009

A revolução industrial trouxe um modelo de produção caraterizado pela separação entre aqueles que detinham os meios de produção e os assalariados, os que significavam a mão-de-obra. Graças aos progressos técnicos, o trabalho manufatureiro deu lugar ao trabalho maquinofaturado, tranduzindo-se numa migração do trabalho doméstico ou de pequenas oficinas para as fábricas, numa transição não só estrutural mas também social, com as consequentes aglomerações de trabalhadores e noções de massa. A germinação das fábricas originou-se devido à necessidade de encontrar um espaço capaz de albergar inúmeras máquinas e concertar os trabalhadores retirando deles o máximo de rendimento, num apertado controlo sobre os trabalhadores.

Neste processo que rompeu com o trabalho tradicional do século anterior, marcado pelo desenvolvimento do processo industrial, verificou-se uma concentração das fábricas, impulsionada pelo aumento dos custos do equipamento, matérias-primas e trabalhadores, bem como pelo incremento da circulação de mercadorias facilitado pelo embaratecimento dos transportes. Esta concentração trouxe ainda as sociedades por ações e sociedades anónimas, originadas pelas dificuldades inerentes às empresas do tipo familiar, com uma gestão específica, sobreestimação dos riscos, limitação dos investimentos, autofinanciamento e elevada preocupação com a economização. O crescimento de uma ou mais empresas que assimilava as demais começou a tornar-se evidente nos finais do século XIX, atingindo-se assim a fase monopolista.

Estas concentrações seguiram dois modelos opostos: concentração horizontal (agrupamento de um conjunto de empresas que trabalham no mesmo setor sob a mesma direção) e concentração vertical (integração na mesma empresa de todas as fases de produção, desde a aquisição das matérias-primas à colocação dos produtos no mercado). A concentração empresarial marcou de tal forma a dinâmica capitalista da época que nasceram as primeiras multinacionais.

Os financiamentos das empresas originou o desenvolvimento do sistema bancários e das bolsas de valores, marcado pelas concessões bancárias à criação das sociedades anónimas, pela compra direta de ações por parte das instituições bancárias e ainda pela participação direta de bancos na fundação de empresas, num processo que deu origem ao capitalismo financeiro.

A racionalização do trabalho que se traduziria numa maximização do assalariado constitui importante preocupação da época. As novas lógicas de produção massiva e de rendimento ao peso tornaram o trabalhador numa máquina cujo rendimento era necessário que fosse o máximo. O taylorismo tornou-se no método mais conhecido e eternizado pela empresa Ford, numa linha de montagem que maximizou o tempo e reduziu o preço dos automóveis Ford.

A Expansão da Revolução Industrial: trocas multilaterais e efeitos de arrastamento no comércio internacional

Abril 29, 2009

O comércio internacional registou um crescimento assinalável com o século XIX. O desenvolvimento operado ao nível do comércio internacional caracterizou-se pela multilateralidade das trocas e pela interdependência das economias participantes, gerando um efeito de arrastamento particularmente verificável nas economias menos desenvolvidas.

Enquanto a Europa se ia tornando especializada numa massiva produção industrial surgiu a necessidade de desenvolver mercados de colocação dos produtos produzidos na Europa, mercados esses que teriam de ser extra-fronteiras europeias. Esses mercados de excoamento de produção europeia eram também os grandes fornecedores das matérias-primas e dos produtos alimentares ao Velho Continente e Estados Unidos.

Este multilateralismo comercial teve na base do surgimento da interdependência económica, caracterizando-se pela existência de circuitos comerciais diversificados, onde se balançavam défices com excedentes. A Europa era, contudo, o palco central deste comércio à escala mundial, onde se jogavam as trocas entre produtos manufacturados e matérias-primas.


No que concerne às políticas económicas assistiu-se a uma alteração entre proteccionismo e livre-cambismo. O primeiro procurava proteger as indústrias nacionais através da aplicação de taxas aduaneiras à concorrência estrangeira. O segundo caso foi adoptado pela Inglaterra que reduziu e por vezes aboliu as referidas taxas, traduzindo-se numa baixa de preços. O sucesso da medida influenciou outros países europeus e os Estados Unidos. Apartir de 18970/80 a maioria dos países regressou ao proteccionismo alegando dificildades económicas.

[HEGEMONIA INGLESA E NOVAS POTÊNCIAS]

No final do século XIX a Inglaterra detém a hegemonia económica mundial aliçercada pela capacidade superior em termos de máquinas a vapor, liderança na produção de carvão, ferro e aço; detenção da maior frota comercial do globo; é o principal exportador de têxteis, máquina e bens de equipamento; possui extensa densidade ferroviária; maior volume de investimentos no estrangeiro e foi a maior beneficiada com a Conferência de Berlim (1884) que dividiu o continente africano.

A segunda metade do século XIX corresponde ao crescimento económico e industrial dos Estados Unidos, facilitado pela abundante presença de recursos naturais, pela chegada massiva de imigrantes e pela qualificação da mão-de-obra. Instalaram-se fábricas de lã e algodão, carvão e aço e desenvolveu-se a indústria eléctrica. O desenvolvimento da organização do trabalho originaram um crescimento tal que tornaram os EUA a principal potência mundial no início do século XX.

Na mesma altura — segunda metade do século XIX — o Japão empreendia o seu processo de industrialização, o conhecido período Meiji (das luzes), baseando-se no modelo ocidental, importando para isso técnicos estrangeiros que dirigia uma abundante e disciplinada mão-de-obra.

A Expansão da Revolução Industrial: a exploração capitalista dos campos

Abril 29, 2009

Paralelamente ao alargamento das vias de comunicação foram-se registando alterações ao nível da produção agrícola com a introdução de novos instrumentos e máquinas industriais e a canalização de investimentos para o campo. Em consequência disto, a agricultura abandonou o seu carácter de subsistência e assumiu uma faceta de agricultura de mercado. A penetração capitalista dos campos caracterizou-se por uma concentração de propriedade conseguida pela aquisição, forçada ou não, de propriedades pertencentes a pequenos proprietários e, sobretudo, pela anexação de terrenos baldios — aumento de áreas exploradas traduzir-se-ia num aumento da produção — e incremento de novas técnicas como os adubos químicos, a mecanização do trabalho e, em alguns casos, na especialização de culturas.

O comércio internacional de produtos alimentares desenvolveu-se, beneficiando do enlatamento dos produtos e da introdução de processos de conservação frigorífica, métodos aplicados para o transporte ferroviário e navegação a vapor.

As transformação de produção agrícola originaram um êxodo rural, uma vez que a compra de pequenos terrenos e a mecanização de métodos de produção, libertaram significativas quantidade de mão-de-obra para a indústria citadina.

[Mercados Nacionais]

O desenvolvimento das vias de comunicação e dos meios de transporte contribuiu para a formação de mercados nacionais. O aumento exponencial da circulação originou a diminuição das tarifas e do preço médio do transporte, o que estimulou o consumo e diminuiu o número de áreas isoladas. Verificou-se, então, uma unificação do mercado interno nacional.

A Expansão da Revolução Industrial: o alargamento das vias de comunicação

Abril 29, 2009

A partir de 1830 foram canalizados importantes investimentos para o desenvolvimento dos transportes, um sector essencial na revolução industrial. Ao facilitarem o escoamento de produção e o abastecimento rápido e volumoso de matérias-primas, os canais de comunicação dinamizaram os mercados internos e externos. Estes investimentos, centraram-se, primariamente, na requalificação da mais tradicional e extensa via de comunicação: a estrada, para a qual foi determinante a técnica desenvolvida pelo escocês Mac Adam, a famosa macadamização, que viria a melhor significativamente a deslocação de diligências e mala-posta. Todavia, as estradas não conseguiram assegurar o transporte maciço de mercadorias e passageiros, pelo que o grande boom foi dado com a aplicação da máquina a vapor — criada por James Watt — aos transportes marítimos e ferroviários.

 

Até meados do século XIX, os primeiros navios a vapor, os steamers não foram capazes de suplantar os tradicionais veleiros clippers, porém, a partir de 1860, mercê da descoberta da hélice, da introdução da estrutura metálica, do aumento da tonelagem e da velocidade, o barco a vapor torna-se o grande instrumento do comércio marítimo e fluvial. Os vultuosos capitais necessários bem como os avultados lucros derivados do transporte de mercadorias e pessoas, levaram à criação de companhias de navegação, em particular especializadas nos trajectos entre a Europa e o Oriente. A esta melhoria de circulação marítima e fluvial juntou-se a renovação de portos e a construção de canais, nomeadamente os canais do Suez (1869) e do Panamá (1914).

Ao mesmo tempo, verificou-se uma expansão dos caminhos-de-ferro, associando os carris usados nas minas e pedreiras à locomotiva. Os caminhos-de-ferro tornaram-se prioritários para o investimento público. Assim, o caminho-de-ferro tornou-se, desde a segunda metade do século XIX um importante motor da «revolução industrial». O alargamento das vias de ferro significou também um novo e maior mercado de trabalho, ao mesmo tempo que criou novos mercados de transacções nacionais e transnacionais, ao deslocar pessoas e mercadorias com elevada frequência. Os seus elevados custos geraram mercados de capitais através de acções ou obrigações ferroviárias, que enriqueceram bancos e accionistas individuais, favorecendo a internacionalização dos capitais.


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